Aplicação prática da análise textural no campo

Para que o desenvolvimento agrícola continue avançando continuamente e trazendo resultados ainda mais positivos para o cenário brasileiro, o produtor rural deve trabalhar diariamente buscando conhecer o ambiente no qual está inserido e as suas características específicas de modo a aumentar a produtividade das lavouras atuando em cima de fatores que podem ser tecnicamente controláveis.

Recentemente foi lançado o novo mapa de solos de Minas Gerais, com maior detalhamento das classes de solos brasileiros existentes no Estado, aproximando-se mais da realidade de abrangência dos tipos de solos encontrados em campo. Segundo dados deste mapa, Minas Gerais é constituído por cerca de 53,97% de Latossolos, 17,32% de Cambissolos, 12,52% de Neossolos, 11,26% de Argissolos, 2,37% de Afloramentos rochosos, 0,40% de Gleissolos, 0,11% de Plintossolos, 0,06% de Luvissolos e 0,01% de Planossolos. Entre esses solos inúmeras características químicas e físicas distintas são observadas. Por isso, é importante que o produtor rural conheça as classes de solos existentes na sua propriedade e possa trabalhar de forma mais detalhada o manejo das culturas em função das características e comportamentos que estes apresentam.

Uma importante ferramenta para avaliar a física do solos e um possível manejo específico de certas áreas é a análise textural dos solos. Através desta análise é possível separar as frações areia, silte e argila do solo e fazer sua classificação textural. A separação das frações do solo se dá pelo tamanho das partículas que são encontradas nos agregados do solo. De acordo com os critérios adotados pela Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS), as partículas com diâmetro entre 2 a 0,05 mm é considerada como areia, podendo ser subdividida em areia grossa (2 a 0,2 mm) e areia fina (0,2 a 0,05 mm), o silte é dado por diâmetros menores que 0,05 mm até 0,002 mm, sendo que abaixo deste nível é considerado a fração argila.

A amostragem para a análise textural segue os mesmos critérios conhecidos para a amostragem química do solo. Em uma mesma amostra é possível solicitar ao laboratório as análises químicas e de textura. Apesar disso, muitas vezes a análise textural é deixada de lado, sendo apenas conhecida empiricamente por muitos produtores através de testes de campo. Através do manejo e do cultivo das áreas sabe-se também que certas áreas possuem caráter mais arenoso ou mais argiloso, porém não há dados quantitativos que permita a correta classificação textural do solo. Existem 13 classes texturais conceituadas pela SBCS, entretanto, para aplicação mais prática desta classificação esta pode ser resumida em cinco classes muito utilizadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA): arenosa, siltosa, média, argilosa e muito argilosa.

Estas classes podem ser definidas através da quantificação das frações areia, silte, argila e suas respectivas proporções em cada área de cultivo. De modo geral, grande parte dos laboratórios fornece a análise textural com a quantificação das frações em dag/kg que corresponde à porcentagem destas no solo ou em g/kg (neste caso, divide-se o valor por 10 para obter a porcentagem).

Além da quantificação das porcentagens de areia, silte e argila, em muitos casos o laboratório também fornece a classificação textural do solo na própria análise. Quando este não é classificado pelo laboratório pode ser utilizado o triângulo textural simplificado, onde pode ser observado que para ser classificado como textura siltosa tem que ter menos que 35% de argila e menos 15% de areia, para a textura média devem ser quantificados mais de 35% de argila e mais de 15% de areia, quando se observa entre 35 a 60% de argila este se encaixa no triângulo na classe argilosa e acima de 60% de argila encaixa-se na parte superior do triângulo recebendo a classificação de textura muito argilosa. Para ser considerado arenoso deve ser quantificado mais de 70% de areia na amostra de solo (areia e/ou areia franca).

A análise de textura é uma avaliação relativamente barata e extremamente importante de ser realizada pelo produtor para compreendermos melhor certos comportamentos e características do solo. Diferentemente das amostragens para análise química, que necessitam de maior frequência de amostragem, em função da variabilidade dos teores e a dinâmica dos nutrientes no solo, a textura uma vez determinada raramente sofrerá mudanças, podendo ser repetida a cada 10 ou 15 anos.

A textura do solo está intimamente ligada com suas características físicas. A relação entre macro e microporosidade é afetada pela textura. Os macroporos são poros responsáveis pela drenagem de água no solo, ao passo que os microporos são poros que armazenam água no solo. Solos com caráter textural mais arenosos possuem maior quantidade de macroporos e menos microporos, o que faz com que este tipo de solo seja drenado mais facilmente, ou seja, sequem mais rápido, ao passo que solos mais argilosos tendem a reter mais água em vista da maior microporosidade. Outras características como a superfície específica, grau de desenvolvimento da estrutura e as densidades do solo e de partículas são fortemente influenciados pela textura dos solos. A tabela abaixo faz uma síntese sobre a importância das frações areia, silte e argila em relação a algumas propriedades ou comportamentos dos solos em geral.

 

Tabela - Influência das frações (areia, silte e argila) em algumas propriedades e comportamento do solo*

Propriedades/Comportamento do solo Areia Silte Argila
Capacidade de retenção de água Baixa Média a Alta Alta
Aeração Boa Média Pobre
Taxa de drenagem Alta Lenta a Média Muito Lenta
Teor de Matéria Orgânica do solo Baixo Médio a Alto Alto a Médio
Decomposição de Matéria Orgânica Rápido Média Lenta
Aquecimento na primavera Rápida Moderado Lento
Susceptibilidade a compactação Baixa Média Alta
Susceptibilidade a erosão eólica Moderada Alta Baixa
Susceptibilidade a erosão hídrica Baixa Alta Solo agregado - Baixa  Solo não agregado-Alta
Potencial de expansão e contração Muito Baixa Baixo Moderado a Muito Alto
Adequabilidade para construção de represas e aterros Baixa Baixa Alta
Capacidade de cultivo após chuva Boa Média Baixa
Potencial de lixiviação de poluentes Alto Médio Baixo
Capacidade de armazenamento de nutrientes Baixa Média a Alta Alta
Resistência à mudança de pH Baixa Média Alta

 

* Exceções a estas generalizações ocorrem como resultado da estrutura do solo e mineralogia da argila FONTE: Silva (2010).

 

Com base nestas avaliações observamos a importância da análise textural e sua aplicação prática para o desenvolvimento das atividades agrícolas. Na tabela, pode-se notar que além dos caracteres físicos, existe influência da textura do solo sobre características químicas como teor de matéria orgânica e sua taxa de decomposição, capacidade de armazenamento de nutrientes e resistência à mudança de pH.

Portanto, solos mais arenosos tendem a elevar o pH mais facilmente e devem ter sua correção trabalhada com mais cuidado no que se refere à aplicação de calcário, pode ter maior lixiviação de nutrientes como Nitrogênio e Potássio, sendo necessário maior parcelamento das adubações nestas áreas, pode apresentar menor capacidade de troca de cátions (CTC) e menor adsorção de fósforo, visto que as argilas são as grandes responsáveis por estas reações no solo.

Outro aspecto interessante é que a textura do solo pode apresentar ou não grande variação ao longo do perfil, ou seja, a quantidade de areia, silte e argila encontrada no horizonte A pode ser extremamente diferente das proporções encontradas nos horizontes B ou C. Portanto, em uma mesma área, para um mesmo tipo de solo, podemos ter diferentes texturas para cada perfil, devido a isso, a classe textural do horizonte B, torna-se um atributo de grande importância para a identificação e distinção das diferentes classes de solos (Argissolo, Cambissolos, Latossolos, etc).

A textura do solo também pode fornecer uma classificação pedogênica das áreas. A relação entre silte e argila fornece uma estimativa do grau de transformação dos constituintes minerais de um solo. Deste modo, quanto menor for esta relação, mais intemperizado e desenvolvido pedogeneticamente é o solo em questão.

 

Autor: Josimar Rodrigues Oliveira Engenheiro Agrônomo

 

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